quinta-feira, 14 de abril de 2011

pomba

e pouco importa o nome que lhe deram ao nascer, se mais se identificava com o nome que deram à sua natureza: Pomba. importa entretanto que se pareça com uma e que essa asa tenha batido tantas vezes em seu peito que a machucou. que esse arrulhar tenha tantas vezes marulhado em sua voz que deixou tonta. que essa natureza de ave a tenha feito tantas vezes sucumbir à liberdade que acreditou também ter liberdade para desistir de existir. qualquer obrigação se opõe ao que ela naturalmente quisesse fazer ou fazia.

forte, sua mãe teve três filhos, vindos de um pai fraco porém doce. os homens da casa serenavam sempre a placidez genética que carregavam e que faltou às duas irmãs. mais a ela. sua natureza não pertencia a lugar nenhum. não havia uma praça onde pousar e nenhum milho a servia na serventia dos aposentados. branca, inquieta, de um falar rápido, corpo e rosto bem desenhados, de qualquer serventia esperava uma serventia maior. qualquer doçura pedia outra doçura maior. seus olhos independentes podiam sozinhos pertencer a outra parte do corpo que olhariam do mesmo jeito. perigosamente eufóricos. era um perigo alguém existir com tanto desejo. e todo desejo é genuíno. ela parecia um poema debulhado. um poema ainda cru tão carregado de sentimento.

sinto como desnecessário traçar aqui um histórico de sucessivos acontecimentos na vida dela. mais interessante era o que ela era dentro dessa história e como reagia diante dos acontecimentos. embora as pessoas temessem aquilo que chamavam de loucura, eu preferia temer aquilo que chamo de pureza excessiva. cansada das pessoas, de ter que viver sob convenções que não a convenciam. que na verdade não a conquistavam, pois sua parte instintiva não aceitava ser convencida e era isso que as pessoas não compreendiam. conquista-se um bicho, conquista-se sua confiança. nenhum animal é convencido a ser domesticado. ninguém convence uma natureza a se entregar.

num arroubo de cansaço, Pomba um dia raspou a cabeça e as sobrancelhas. movida apenas pela generosidade de seu desejo bruto, tirou a moldura que envolvia aquele rosto tão bem feito, que dava uma personalidade encaracolada à inquietude daqueles olhos de ave. sentiu-se segura, sentiu-se em casa com a imagem que encontrava no espelho. havia fugido do entorno, voltou ao berço de si mesma, lá se sentia rica, poderosa, dona de si, moradora do lugar chamado mistério, tão inominável que é, tão rápido se passa por lá, nem ela sabia o caminho. agora sim, podia habitá-lo. de posse de suas asas, foi à cozinha, subiu num banco e alcançou a caixa de remédios. tomou todos. raspar a cabeça lhe dera passaporte para o direito de não existir. foi encontrada nua, caída no chão do banheiro, inerte, pálida. parecia um anjo. como um bicho acuado, tudo o que respondia, ao acordar era que queria se esconder.

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faz parte da minha mais nova aventura. por favor, falem. e sejam cruéis.

8 comentários:

  1. quis voar
    - tinha asas, afinal, pra isso

    mas também tinha vertigem

    tanto tempo presa
    não lhe trouxe apego ao chão

    mas, ao tirar-lhe do convívio
    com o ar
    livre
    lhe deram
    todo o peso do mundo que os tolos pisam
    em suas costas

    quis voar
    não conseguiu

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  2. Nanaaaaaaaaaaaaaaaaa!

    Esse me lembrou aquele "sobre uma boneca punk". Talvez por ser o outro escrito teu em prosa que li... Mas é mais que isso. Tem uma correlação bem íntima entre eles. Ao menos, é o que eu sinto.

    Esses escritos teus - seja em prosa, seja em poesia - me tocam de um jeito... E dói.

    Mas gosto! E vc sabe. =)

    =*

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  3. Acho que tem, Jeff. Mas prosa, por enquanto é só uma aventura mesmo. Uma brincadeira boa de falar. de exorcizar. de contar histórias...

    beijo!

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  4. Você não escapa de ser poeta. E isso é um mérito dos grandes prosadores.

    Abraços!

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  5. Gostei do seu texto, é bem leve.Uma prosa poética bem interessante.Continue.Li a seu respeito no Jornal Estado de Minas e estou acompanhando seu blog que tem ótimos poemas.Parabéns!!!

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  6. Em Tempo:Se tiver tempo confira, www.meiapalavra.com.br.

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  7. Eu vi, eu vi essa Pomba outro dia, debruçada sobre o parapeito dos olhos vi, num lugar muito alto, que de repente eu precisava conquistar, a bichinha pousada peralta láaaaa em cima. Entendi que hora dessas vou ter eu mesma de assumir que sei voar caso queira encontrar meus páreas.

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  8. tá tudo aí!!!
    aventure mais
    e mais e mais
    parabens

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